cego fotografa  
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como qualquer pessoa o cego ‘frequenta o mundo’, possui preferências de caráter afetivo e estético que podem e devem encontrar canais de expressão, como forma de afirmar seus direitos individuais e assim exercer sua cidadania.

E como vivemos em um mundo obcecado pela imagem, é quase impossível a quem queira construir sua identidade fazê-lo sem se utilizar de uma foto. Todas as ‘minorias’ lançam mão desse recurso para propagar suas demandas.

Contudo alguém poderá argumentar que até aqui, quem o fez não possui a peculiaridade da cegueira, circunstância que não tira a legitimidade de tal recurso, mas ao menos o torna um tanto estapafúrdio/estranho.

Acontece porém que a fotografia, enquanto suporte de uma mensagem, pouco ou nada depende da condição de quem a produziu.

Uma boa foto pode ser feita até involuntariamente. Importa apenas o impacto que causa em quem vê, e assim sendo, a foto do cego terá tanta legitimidade quanto a do vidente, apesar do cego não poder avaliar as qualidades técnicas ou estéticas da foto. Esta tarefa caberá ao público que a vir.

Se por um lado isso torna o ato de fotografar pouco interessante para o cego, por outro pode ser estimulante a possibilidade de produzir uma mensagem à qual ele só terá acesso através das palavras do vidente que são imprecisas ou mesmo incapazes de traduzir o ‘conteúdo’ da foto, mas ao menos esta lhe servirá de pretexto para explorar novas formas de relacionamento com a sociedade. Fazer contrapontos entre o seu mundo e o do vidente.

Além de existirem variações quanto ao grau de cegueira dos participantes deste trabalho – alguns totalmente cegos e outros com visão residual – a maioria deles nem sempre foi cega. Isso faz com que possuam diferentes concepções em relação ao ‘mundo da imagem’.

Concepções muito difíceis de serem explicitadas porque simplesmente não existem palavras que as exprimam, já que o arsenal conceitual de que dispõe o cego é o mesmo que se encontra na linguagem comum, que como sabemos, é composta principalmente por metáforas visuais que muitas vezes não podem ser traduzidas para a sensibilidade do cego e tampouco servem para expressar sua concepção de mundo, sem sofrer considerável variação/avaria.

Por essas e outras razões, eles não poderão tirar fotos que se ajustem ao padrão canônico da fotografia, já que para este existem regras bastante explícitas quanto ao enquadramento, dosagem de luz, composição, etc. Mas se levarmos em conta que muitos fotógrafos célebres e intelectuais aficcionados desta arte encaram o ato de fotografar como algo que escapa ao domínio daquilo que chamamos de racional ou lógico, somos levados a crer que apesar dos diferentes modos de perceber o mundo, os cegos também podem encontrar o seu modo próprio de se expressar através deste canal.

É sempre bom lembrar que por melhor que seja, uma foto é um simulacro, um ‘fetiche’, cujo poder só se manifesta quando é apanhado pelo olhar do outro.

Quando começamos ensiná-los fotografar, observamos que alguns pensavam que eles próprios ‘saíam’ nas fotos que tiravam. Isto decorria do fato de que a percepção espacial que possuem depende principalmente do sentido da audição, ou seja, uma percepção que não permite estabelecer com muita precisão diferenças entre dentro e fora, frente e atrás, baixo ou alto, longe, perto, etc.

Em outra oportunidade, ao visitarmos uma exposição em que um vidente fazia uma descrição parcial do que havia nas fotos, fizeram-nos a seguinte pergunta:

Qual a diferença entre a fotografia em preto e branco e a fotografia em cores?

Como responder a uma pergunta tão óbvia?

Após longas horas de conversas com um dos membros da equipe, que nunca enxergou e que no entanto, via/ouvia muita televisão, deu-nos a entender, em sua fala, que pensava que o diretor de sua novela favorita aparecia em cena.

Depois de ouvir uma explicação do que seria a gravação de uma telenovela e do que é que afinal vai ao ar, ele se mostrou bastante surpreso em saber que o que via/ouvia era um recorte de uma realidade bem mais complexa.

Quanto ao diretor, apesar de não aparecer nas diferentes cenas que se sucedem, temos de admitir que está presente a todas elas e disto nós, os videntes, às vezes nos esquecemos.

Ao convidar os cegos para esta experiência buscamos na dicotomia entre a visão e a cegueira, fazer uma reflexão sobre AQUILO que para além da vasta gama de sensações que nos dão os orgãos fisiológicos dos sentidos, (vem) constitui(r) o efetivo SENTIDO das coisas.

 
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