o que estes olhos vêem?  
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estes olhos vêem. Não como os seus, que percorrem as páginas desta revista. Mas eles enxergam, talvez até mais do que você. Eles não sabem se sua roupa é amarela ou azul. Se seus cabelos são loiros ou morenos. Não fazem idéia de suas feições. Isso não importa. Não para estes olhos, que apesar de cegos, enxergam tudo o que para nós é invisível. E nunca duvide disso.

Se eu lhe perguntar que caminho você faz para chegar à escola ou ao trabalho, tenho certeza de que me explicará muito bem. Mas será que você pode me dizer, sem pensar, por quantas lombadas o ônibus passa, ou quantas curvas o carro faz? Para você que "enxerga", isso não faz diferença. O importante é conhecer as ruas por onde deve andar. Você as "vê". Sabe que a entrada de um certo prédio fica depois daquela esquina. Um cego não vê a esquina. Ele a sente. "Imagine que você está andando ao lado de uma parede. Quando se chega perto da esquina, o vento quebra. O movimento dos carros também aumenta. Dá para perceber pelo som do motor e da roda. Se ele entra muito rápido é porque está numa esquina." É assim que o didático Marcelo Itikawa tenta explicar à repórter os detalhes - invisíveis aos que vêem - que o ajudam a se movimentar.

O estudante de 17 anos, que nasceu cego e está em dúvida se será tradutor ou administrador, toca bateria em uma banda de rock e pratica ciclismo. Marcelo é "co-piloto" de uma bicicleta de dois lugares. Ele sai à noite com um grupo de amigos, conhecendo a cidade pelos seus cheiros, sons e, principalmente, buracos. "Para mim, conhecer um lugar é só passar do lado dele. Cada bairro, cada lugar tem uma característica. Quando passo por cima da avenida da Liberdade, o cheiro que sinto me indica que ali há muitos restaurantes. E sei que estou perto da minha casa, na Vila Conceição, pela quantidade de buracos que enfrento."

Como em uma colcha de retalhos, o cego se orienta costurando pequenos pedaços de mundo, absorvidos com todos os sentidos restantes. "Eu sei que uma pessoa passou atrás de mim ou à minha frente. Sinto o vento, o calor, o perfume dela. Em um ponto dá para perceber se tem algum ônibus parado: é só sentir se há sombra. Se tiver, é porque algo está fazendo." O autor da frase acima, Anderson Bianchi, de 18 anos, tem baixa visão, notando apenas a presença de luz. Curioso, Anderson, ao ser fotografado, não resiste e pergunta: "posso ver sua câmera?" O estudante, que adora trabalhar com manutenção de computadores, "vê" a máquina segurando-a em suas mãos e sentindo cada uma das peças. Quer saber como ela funciona e quando ouve que a câmera vê melhor - ou seja, que a qualidade das fotos aumenta - se há mais luz no ambiente, abre um sorriso. "Ah, então a câmera é deficiente visual também."

Seu amigo Fernando José da Silva acompanha os risos de Anderson. O estudante de 14 anos, que perdeu a visão recém-nascido - por falta de oxigênio na incubadora onde estava -, é parecido com a câmera. Com luz forte, ele consegue ver vultos. Mas as imagens que a máquina fabricou, ele não pode enxergar claramente. "Pena que não consigo ver a foto", diz. "Mas quem sabe não inventam a fotografia em relevo."

Assim como Anderson vê a câmera tocando-a e Fernando precisaria dos dedos para enxergar a foto, o cego só conhece a própria face pelo tato. Mas, como explica Anderson, "não dá para sentir as mudanças no nosso rosto, porque é uma coisa do dia-a-dia, que eu sinto sempre. Você também, que enxerga, não percebe que mudou porque se vê todos os dias. A não ser se eu ficasse sem colocar a mão na face por dez anos". Fernando, para explicar, levanta a companheira inseparável. "É como a ponteira da minha bengala. Se eu passo a mão nela todos os dias, eu não sinto o desgaste que ela vai tendo. Mas se eu comprar uma bengala nova e não tocar na ponta por um bom tempo, vou sentir como ela já ficou comida." A bengala é essencial para o cego caminhar. Ela vai à frente, informando se no caminho há uma parede, um buraco, uma porta ou até mesmo uma pessoa.

Com as meninas, Anderson se diz atirado - "Sou cara-de-pau, já foi falando logo com ela" - enquanto o amigo é mais tímido. Mas ambos afirmam que a beleza de uma garota não está em seu rosto. "A primeira coisa que eu olho é o jeito dela", diz Fernando.

"Para os cegos é mais profunda a beleza interior. Se aquela menina é bonita ou feia é porque ela se mostra assim no relacionamento. Não importa se ela é loira ou morena, e sim o que ela faz e o que busca aprender. Eles têm uma sensibilidade muito profunda. Nós, videntes, não conseguimos pensar como eles", afirma Vanessa Lupo, assistente social da Laramara, entidade de assistência aos deficientes visuais.
Luz que se apaga

Ela nunca viu o rosto dele. E vice-versa. Mas Ângela Costa, de 29 anos, consegue espantar quando, no meio da conversa, diz: "Meu noivo acabou de chegar". "Como você sabe?", pergunta a repórter, incrédula. "Pelo barulho da bengala." Ela o conheceu após perder a visão - há três anos, por complicações da diabetes -, quando começou a trabalhar na Laramara, onde hoje é auxiliar de projetos. O processo da cegueira foi lento e doloroso. Desinformação, diversos tratamentos, cirurgias, esperanças não concretizadas. E, nesses meses de perda gradual, ela foi descobrindo uma nova Ângela. "No começo ficava muito em casa, introspectiva. Eu estava dentro de mim, conversando comigo mesma. Então percebi que, a partir daquele momento, minha vida seria diferente. Eu iria fazer tudo de uma outra maneira: andar, ler, usar o computador. Mas o resultado final disso tudo não poderia ser diferente de uma pessoa que enxerga."

Ângela precisava aprender como viver em um mundo diferente. E nesse aprendizado, repleto de tentativas e erros, pequenos atos são grandes vitórias. "Para passar batom, quando enxergava, eu sempre tinha que ter um espelhinho na minha frente. Por isso achava que não ia conseguir. Mas como sei se posso fazer alguma coisa se não tentar? E se não der certo, tento de novo. Um dia passei, sozinha, e fui conversar com a minha mãe. Perguntei se havia alguma coisa estranha no meu rosto, Ela, preocupada, disse que não e perguntou se eu estava bem." É claro que estava tudo bem. Havia um brilho rosa em seus lábios. E apenas nos lábios.

Seu noivo, Renato José da Silva, operador de telemarketing na mesma entidade - além de ciclista e músico profissional - perdeu a visão há cinco anos, devido a um glaucoma. Assim como Ângela, ele conta que enfrentou momentos de revolta. "Houve uma fase em que não queria aceitar, ficava longe dos amigos, das pessoas. Com o tempo, o corpo sofre mudanças e se adapta à nova condição."

A assistente social Vanessa explica o processo. "O deficiente que perdeu a visão na idade adulta, fica inacessível por períodos de até quatro anos. Temos que esperar o tempo dele se aceitar e descobrir que ainda tem potencial. Ele, sozinho, tem que descobrir o seu valor."

Quem vê Ubiratan Silva andando pela sala, sem bengala, não poderia imaginar que, para ele, todos os objetos e pessoas do lugar são apenas vultos. O técnico de comercialização, de 29 anos, adquiriu a deficiência há 9, em um acidente de carro. Ele explica que a descoberta de seus "novos olhos" traz consigo as lembranças dos antigos. "Quando alguém descreve um novo prédio para mim, quanto mais detalhes ela passa, mais bonita fica a imagem. Eu busco referências nas referências que tenho na mente e, nelas, tento enquadrar o que foi descrito."

O que é azul?

Você nunca vai vê-la de verde. Ela prefere azul ou rosa, sempre em tons pastel. "A roupa tem que entrar e sair junto comigo. Não pode chegar antes de mim", diz, entre risos. Mas o verde que Terezinha de Souza detesta não é o mesmo verde que você conhece. A universitária e funcionária da Biblioteca Braille do Centro Cultural São Paulo nunca viu cor alguma. Cega desde o nascimento, há 35 anos, Terezinha tem um verde que só pertence a ela. Uma representação, que não consegue explicar, mas que diferencia cada uma das cores. "Não vejo o mundo, mas sei como ele é. Tudo para mim é único. Os cegos podem ter a mesma deficiência, mas não são iguais, eles reagem de forma diferente", afirma.

"Vivo em um mundo onde todos vêem. Tudo o que eu errar, os outros dirão que é devido à cegueira. Pela necessidade, tenho que me adaptar. Se eu não me enquadrar, os outros me enquadram". É um processo contínuo, minimalista e penoso. Qualquer mudança na disposição dos móveis torna o ambiente desconhecido. "Eu não penso para fazer, ajo por condicionamento. Você pode desviar de um sofá, eu não. Para saber que ele está ali, preciso esbarrar nele. Mas se bato uma vez, não esqueço."

Vandileusa de Oliveira, envergonhada com a câmera, também sorri. Sua história se assemelha à de Terezinha: 34 anos, cega de nascença, funcionária pública. Ela trabalha na revelação de radiografias no Hospital da Clínicas de São Paulo, tarefa que compartilha com outras dezenas de deficientes. O que para os videntes seria penoso - passar várias horas em salas escuras -, para Vandileusa já virou rotina, há 15 anos. Vestida de preto, ao ser questionada por que havia escolhido a cor, diz: "nunca vi o preto mas criei uma cor só para mim."

Seu colega de trabalho Nelson Alexandre explica de uma maneira diferente. "Para mim, que sou cego, a cor não existe. Associo as cores porque alguém me falou que tal cor combinava com a outra e isso ficou gravado." O pai de quatro filhos, com 48 anos, solta francas gargalhadas com a curiosidade incessante da repórter. "Como o senhor sonha?" "Ué, igual a você! Só que a gente sonha com as mesmas deficiências que tem na vida real. No sonho não vai ter cores, nem paisagem, nem imagem. Se sonho com um carro, não tenho a imagem do carro, mas a noção de que o carro passou", diz.

Maria Lúcia Amiralian, professora do Instituto de Psicologia da USP e especialista em desenvolvimento e deficiência, explica o que Nelson descreve. "Podemos chamar de imagem uma representação visual ou uma representação mental. Os cegos não têm a primeira. Nós criamos nossas imagens visualmente, eles criam por meio de outros sentidos."

A professora diz que as sensações, entendidas como representações vividas pelos sentidos, formam percepções. Você percebe pelos sentidos que aquilo é uma cadeira e forma na mente uma representação desse objeto. Quando encontrar uma cadeira, reconhecerá, porque já tem a percepção. Para criarmos isso, utilizamos principalmente a visão, porque é um sentido que indica a distância. A construção desse processo nos deficientes visuais "se dá por um caminho diferente dos videntes, usando os outros sentidos, que se tornam mais aguçados do que os nossos".

"Deus não dá biscoitos a quem não tem dentes"
A última vez que ela viu o próprio rosto foi em outubro de 1936. Tinha 17 anos. Foi nesse dia que Dorina Nowill percebeu que não enxergava mais. Em um chá na casa de uma amiga, alguém lhe mostrou uma fotografia, mas ela não conseguiu ver a foto. Dorina só viu o sangue escorrer de seus olhos. Alguns meses antes, já havia perdido a visão periférica do olho esquerdo e a central do direito. "Eu olhava no rosto das pessoas e não via o nariz", conta.

Foram vários tratamentos intensivos com os melhores oftalmologistas de São Paulo. Dorina chegou a ficar um ano em uma fazenda em Jundiaí, para que ao menos parte de sua retina se regenerasse. Nada adiantou. Mas engana-se quem pensa que a cegueira a abalou. "Quando fiquei cega, meus pais entraram em desespero. Fui eu quem liguei para o médico. Sou assim mesmo: só tremo e choro depois. E não tenho nenhum mérito pessoal. Deus me fez ativa. Ele não dá biscoitos a quem não tem dentes."

O período em que passou na fazenda fez surgir o interesse em lecionar, ensinando catecismo às crianças do lugar. De volta a São Paulo, ela foi a primeira aluna cega a se formar professora. Anos mais tarde especializou-se em deficiência visual na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Como havia poucas obras em braile no Brasil, mobilizou funcionários e criou a Fundação do Livro do Cego no Brasil, transcrevendo títulos para o sistema de escrita. Posteriormente a organização passaria a se chamar Fundação Dorina Nowill, em homenagem à sua criadora.

Em seu escritório na entidade - que ampliou suas atividades, atuando também na reabilitação e educação do deficiente - há um tapete colorido, pendurado na parede. É obra da senhora de 82 anos, mãe de cinco filhos, que, além das linhas, entrelaça as lembranças da São Paulo antiga com as percepções de 65 anos de cegueira. As últimas imagens que conserva da cidade são a rua Augusta com os colegiais e os bondes, as missas de domingo, o filme de Fred Astaire e Ginger Rogers. Essas fotografias se misturam às mudanças que Dorina não viu, mas viveu e conhece como qualquer outro paulistano. A professora sabe que os antigos casarões da avenida Paulista deram lugar a grandes prédios, mas, em sua mente, as imagens das velhas casas ainda estão acesas, pulsando em seus olhos adormecidos.

* O e-mail para contato é jdoretto@hotmail.com

 
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